sábado, 31 de julho de 2010

Sartre na terrinha

Filosofia


Há cinquenta anos, o filósofo francês Jean-Paul Sartre e sua companheira Simone de Beauvoir visitavam Fortaleza e o interior do Ceará. Seminário na Uece celebra a passagem

Pedro Rocha - 28/07/2010 00:30
Jean-Paul Sartre chegou ao Brasil em 12 de agosto de 1960, acompanhado de sua companheira Simone de Beauvoir, e permaneceu no País até o fim de outubro. O convite partiu do escritor baiano Jorge Amado, comunista como o francês, que já era um dos intelectuais mais combativos de um período de forte acirramento entre os blocos capitalista e socialista. A viagem do filósofo e escritor ao Brasil seria marcada por conferências e encontros com intelectuais em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Fortaleza.

Então com 55 anos, Sartre era um dos mais proeminentes intelectuais de seu tempo, principal pensador do “existencialismo” e defensor ferrenho do engajamento dos intelectuais nas questões políticas. Esse foi o tom de sua participação no I Congresso Brasileiro de História e Crítica literária, realizado no Recife.

Apesar de ter tido seu nome anunciado para a conferência de abertura do Congresso, Sartre chegou apenas para a fala de encerramento, quando levou o debate que seria uma constante em sua visita ao Brasil: a necessidade de uma “literatura popular”.

O escritor defendia uma escrita marcadamente social que seria destinada a maior parte da população, o povo. Para o escritor, ao contrário da França, produtora de uma “literatura universal”, o Brasil poderia produzir uma literatura popular por não ter tido tempo ainda de uma separação drástica entre as camadas do povo, fruto de uma burguesia também menos desenvolvida. “É necessário procurar uma literatura, procurar um público para os livros que se escrevem no povo mesmo”.

Por sinal, e apesar da relação inevitável com intelectuais e artistas brasileiros, além da rotina de debates e conferências em todas as cidades que passaram, o casal parecia ter como principal desejo conhecer o povo do País, principalmente em seus recantos interioranos.


Simone
O testemunho mais vivo dessa viagem do casal foi registrado por Simone em seu Sob o Signo da História. No livro, a escritora diz que o convite para a visita a Fortaleza foi feito pelo Reitor da Universidade Federal do Ceará, na época o professor Antonio Martins Filho, que encontraram no Recife. A passagem por Fortaleza foi rápida, com passeio e conferências, como a que o filósofo ministrou na Concha Acústica da Universidade federal do Ceará (UFC).

“Era surpreendente a frescura do vento, tão perto do Equador; e que prazer em reencontrar o movimento do mar e uma verdadeira cidade! De novo, as jangadas com suas velas brancas, um mercado com seus fortes odores, estreitas ruas comerciais – tecidos, sapatos, roupas, farmácias – praças caprichosas, squares, quiosques, e a vibração humana. Sartre fez uma conferência, houve um almoço oficial, em um clube à beira-mar e um coquetel nos jardins da Reitoria, onde o coral de estudantes cantou”.

A descrição da escritora dá conta da flora da região, tomada de carnaúbas e dos “arbustos enfezados, lenhosos, de mornas folhas”, discute os motivos das secas e as possíveis soluções para o problema, além de abordar “os beatos e os cangaceiros”, binômio característico da visão sobre o sertão nordestino.

SERVIÇO
III SEMINÁRIO DO GRUPO DE ESTUDOS SARTRE De hoje (28) até sábado (31), no Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará - Uece (Avenida Luciano Carneiro, 345 - Bairro de Fátima). A inscrição custa R$ 15. Outras informações pelo fone 3101 2030.
Fonte: Jornal O Povo

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